Por vezes deixo o relógio de pulso para trás e perco-me imediatamente no tempo.
Olho à volta e não vejo nenhuma indicação de quando estou onde estou.
Não entro em pânico. Apresso o que me afastou do meu relógio de pulso.
E quando volto a ele, volto a mim, volto ao tempo.
E aqueles segundos ou minutos? Esses... bem, esses nunca mais voltam.
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30 de agosto de 2011
19 de junho de 2011
Primavera III
Já com a chave na ignição e o rugido do motor a misturar-se com o som das aves lá fora, sinto-me pronto para partir, mas não sem antes pôr a tocar o CD que torna todo o acto de conduzir muito mais emocionante. O CD entra e em menos de dois segundos as primeiras notas da Bloodmeat dos Protest the Hero abafam todos os sons que entram pelas janelas abertas do carro. Meto a primeira mudança e arranco. Já falta pouco…
A meio da viagem algo estranho ocorre. Sem aviso o meu corpo começa a desvanecer e a minha visão a enevoar. Quando volto a mim já o carro está fora da estrada e puxo imediatamente o travão de mão fazendo as rodas derrapar na gravilha. Só tenho tempo de abrir a porta e já uma onda de vómito sai da minha boca em direcção ao chão.
Passam minutos até finalmente conseguir recuperar e os carros continuam a passar por mim sem ninguém parar sequer para perguntar o que se passa. Pego no telemóvel para ver as horas e noto que tenho várias chamadas não atendidas e mensagens no voicemail (que decido ignorar). São dela. Tento ligar de volta enquanto penso que para a próxima não deveria ter a música tão alta para poder ouvir o telemóvel. Novamente a chamada vai parar ao voicemail e volto a sentir-me frustrado. Decido voltar imediatamente ao meu percurso, limpo a boca com um lenço e arranco antes que me atrase.
*****
Finalmente chego ao meu destino e estaciono o carro em frente ao portão de entrada da casa como é habitual. Saio do carro e dirijo-me ao portão mas quando vou a tirar as minhas chaves do bolso noto que o portão está destrancado. Acho estranho, não é normal, mas decido entrar de qualquer maneira. Quando chego à porta da casa noto aquilo que inicialmente a vegetação me impediu de ver, a porta está aberta e a fechadura parece forçada. Naquele momento passam-me pela cabeça todos os pensamentos negativos possíveis e antes de poder escolher um já estou a correr para o interior da casa. Grito pelo nome dela e procuro-a em todas as divisões da casa até chegar ao quarto dela. A porta estava quase fechada mas com um encontrão com o ombro abro-a. O meu corpo entra em choque imediato com a visão e da minha mão cai a caixa que trazia.
As paredes, o tecto e o chão estão pintados de vermelho, na cama vejo um corpo com as mãos atadas por cordas à cabeceira e completamente coberto de sangue e cortes profundos. Reconheço-a e grito o nome dela. Grito outra vez e outra vez e outra vez… cada vez mais alto até acabar por perder a força nas pernas e cair com um estrondo nos meus joelhos. Não sinto a dor, não sinto nada e volto a gritar o nome dela. Grito mais uma vez até me faltar a voz e perder todas as forças. Caio com a cara numa das poças de sangue fresco e tenho uma última visão antes de desmaiar:
O anel de noivado ainda dentro da caixa que trazia na mão há segundos atrás…
Fim
A meio da viagem algo estranho ocorre. Sem aviso o meu corpo começa a desvanecer e a minha visão a enevoar. Quando volto a mim já o carro está fora da estrada e puxo imediatamente o travão de mão fazendo as rodas derrapar na gravilha. Só tenho tempo de abrir a porta e já uma onda de vómito sai da minha boca em direcção ao chão.
Passam minutos até finalmente conseguir recuperar e os carros continuam a passar por mim sem ninguém parar sequer para perguntar o que se passa. Pego no telemóvel para ver as horas e noto que tenho várias chamadas não atendidas e mensagens no voicemail (que decido ignorar). São dela. Tento ligar de volta enquanto penso que para a próxima não deveria ter a música tão alta para poder ouvir o telemóvel. Novamente a chamada vai parar ao voicemail e volto a sentir-me frustrado. Decido voltar imediatamente ao meu percurso, limpo a boca com um lenço e arranco antes que me atrase.
*****
Finalmente chego ao meu destino e estaciono o carro em frente ao portão de entrada da casa como é habitual. Saio do carro e dirijo-me ao portão mas quando vou a tirar as minhas chaves do bolso noto que o portão está destrancado. Acho estranho, não é normal, mas decido entrar de qualquer maneira. Quando chego à porta da casa noto aquilo que inicialmente a vegetação me impediu de ver, a porta está aberta e a fechadura parece forçada. Naquele momento passam-me pela cabeça todos os pensamentos negativos possíveis e antes de poder escolher um já estou a correr para o interior da casa. Grito pelo nome dela e procuro-a em todas as divisões da casa até chegar ao quarto dela. A porta estava quase fechada mas com um encontrão com o ombro abro-a. O meu corpo entra em choque imediato com a visão e da minha mão cai a caixa que trazia.
As paredes, o tecto e o chão estão pintados de vermelho, na cama vejo um corpo com as mãos atadas por cordas à cabeceira e completamente coberto de sangue e cortes profundos. Reconheço-a e grito o nome dela. Grito outra vez e outra vez e outra vez… cada vez mais alto até acabar por perder a força nas pernas e cair com um estrondo nos meus joelhos. Não sinto a dor, não sinto nada e volto a gritar o nome dela. Grito mais uma vez até me faltar a voz e perder todas as forças. Caio com a cara numa das poças de sangue fresco e tenho uma última visão antes de desmaiar:
O anel de noivado ainda dentro da caixa que trazia na mão há segundos atrás…
Fim
7 de abril de 2011
Primavera II
*beep*...*beep*...*beep*..."O número para que ligou não tem voicemail activo, por favor ten…"
A frustração faz-me pressionar o botão com mais força do que a necessária e desligo a chamada. "Mas por que raio é que ela não atende?" Penso eu.
Procuro os bolsos para me certificar que não me falta nada. Carteira… ok. Prenda… ok. Chaves de casa… ok. Chaves do carro… ok. Telemóvel… Telemóvel? Por uma fracção de segundo o desespero e confusão juntam-se às outras centenas de emoções que percorrem o meu corpo e mente neste momento até que olho para a mão e vejo o item em falta. Telemóvel… ok. Estou pronto para me atirar ao mundo.
Rodo a chave e, em sintonia com o clique, rodo o puxador, o sol entra sem ser convidado como um amigo abusador e preenche o meu hall de entrada. A sua luz produz o mesmo efeito nos meus olhos e por momentos a única coisa que vejo, cheiro, oiço e sinto é a cor branca. A pouco e pouco começo a recuperar o controlo dos sentidos, um a um eles voltam a mim e permitem-me apreciar o cenário deslumbrante à minha frente. A primeira coisa que sinto é o calor do sol a dizer-me que devia deixar a camisola em casa, ao que acabo por desobedecer. Segue-se o chilrear das andorinhas, pardais, melros e demais pássaros que povoam as árvores carregadas de flores cujo aroma acciona o sentido seguinte. Por fim sou capaz de vislumbrar tudo o que os outros sentidos já tinham saboreado e perco-me sem memória e sem movimento e sem a sobredosagem de emoções.
Quando finalmente me volto a encontrar olho para o relógio preso ao meu pulso e todas as emoções voltam naquele instante com um impacto tão grande que o meu corpo, quase sem tempo de fechar a porta atrás dele, é levado em direcção ao carro como se por uma onda gigante estivesse a ser arrastado.
Antes de entrar, apercebo-me do reflexo no tejadilho preto do carro do céu onde vive o radiante sol e as poucas nuvens que sem nunca ocultar a grande esfera brincam à sua volta e, sem eu dar por isso, um sorriso abre-se na minha cara e surge o pensamento mais inesperado na minha pessoa. Tão inesperado que consegue escapar por entre o sorriso e fazer-se ouvir:
“O mundo é lindo.”
A frustração faz-me pressionar o botão com mais força do que a necessária e desligo a chamada. "Mas por que raio é que ela não atende?" Penso eu.
Procuro os bolsos para me certificar que não me falta nada. Carteira… ok. Prenda… ok. Chaves de casa… ok. Chaves do carro… ok. Telemóvel… Telemóvel? Por uma fracção de segundo o desespero e confusão juntam-se às outras centenas de emoções que percorrem o meu corpo e mente neste momento até que olho para a mão e vejo o item em falta. Telemóvel… ok. Estou pronto para me atirar ao mundo.
Rodo a chave e, em sintonia com o clique, rodo o puxador, o sol entra sem ser convidado como um amigo abusador e preenche o meu hall de entrada. A sua luz produz o mesmo efeito nos meus olhos e por momentos a única coisa que vejo, cheiro, oiço e sinto é a cor branca. A pouco e pouco começo a recuperar o controlo dos sentidos, um a um eles voltam a mim e permitem-me apreciar o cenário deslumbrante à minha frente. A primeira coisa que sinto é o calor do sol a dizer-me que devia deixar a camisola em casa, ao que acabo por desobedecer. Segue-se o chilrear das andorinhas, pardais, melros e demais pássaros que povoam as árvores carregadas de flores cujo aroma acciona o sentido seguinte. Por fim sou capaz de vislumbrar tudo o que os outros sentidos já tinham saboreado e perco-me sem memória e sem movimento e sem a sobredosagem de emoções.
Quando finalmente me volto a encontrar olho para o relógio preso ao meu pulso e todas as emoções voltam naquele instante com um impacto tão grande que o meu corpo, quase sem tempo de fechar a porta atrás dele, é levado em direcção ao carro como se por uma onda gigante estivesse a ser arrastado.
Antes de entrar, apercebo-me do reflexo no tejadilho preto do carro do céu onde vive o radiante sol e as poucas nuvens que sem nunca ocultar a grande esfera brincam à sua volta e, sem eu dar por isso, um sorriso abre-se na minha cara e surge o pensamento mais inesperado na minha pessoa. Tão inesperado que consegue escapar por entre o sorriso e fazer-se ouvir:
“O mundo é lindo.”
6 de abril de 2010
Primavera I
Acordo segundos antes de o despertador tocar. Desligo-o antes que o seu som estridente arruíne a minha manhã. Sinto a energia a ocupar lentamente cada canto do meu corpo e a empurrá-lo sem esforço para fora da cama.
O sol tenta entrar no quarto pelas brechas das portadas, parecendo querer adiantar o nosso encontro. Na minha cabeça digo-lhe para esperar, já falta pouco.
As portas do armário deslizam apenas com um toque e escolho cuidadosamente cada peça de roupa que vou usar. Só a roupa interior fica ao acaso.
Sem acender nenhuma luz percorro o corredor em direcção à casa de banho onde tenho o primeiro contacto com o sol. Através das janelas sem cortinas vejo o dia que se avizinha e cresce um sorriso no meu rosto. Cai o pijama no chão e entro no duche. A água quente refresca-me a mente. Do nada oiço a minha voz a cantarolar In Exile dos Thrice.
Corpo seco e de volta ao quarto com a toalha enrolada à volta da cintura olho para a roupa estendida em cima da cama. Digo para mim que está na hora de vestir o uniforme. Visto a roupa interior seguido de um par de calças de ganga pretas. Paro-me por segundos ainda a segurar a t-shirt vermelha enquanto pela minha cabeça passam todas as variáveis possíveis para decidir se terei calor ao combinar a t-shirt com uma camisa. Chego a acordo comigo próprio que não será um peso significativo caso tenha que despi-la. O toque final vem com o calçar dos meus companheiros de longa data. Estes velhos Chuck Taylor All Star pretos e brancos contariam, se capazes, mais histórias do que a minha memória alguma vez conseguirá armazenar.
Olho para o pulso e confirmo que ainda tenho tempo para tapar o buraco que se faz ouvir no meu estômago. Ao abrir a porta do frigorífico este parece vazio mas depressa revela que o seu interior contém exactamente o essencial. Retiro um pacote de leite que, ainda com a frescura do frigorífico, uso para afogar os cereais Crunch que tinha despejado numa tigela. Perco a conta às vezes que levo a colher à boca até apenas restar o leite na tigela. Esvazio o seu conteúdo achocolatado e olho novamente para o relógio. Está na hora.
O sol tenta entrar no quarto pelas brechas das portadas, parecendo querer adiantar o nosso encontro. Na minha cabeça digo-lhe para esperar, já falta pouco.
As portas do armário deslizam apenas com um toque e escolho cuidadosamente cada peça de roupa que vou usar. Só a roupa interior fica ao acaso.
Sem acender nenhuma luz percorro o corredor em direcção à casa de banho onde tenho o primeiro contacto com o sol. Através das janelas sem cortinas vejo o dia que se avizinha e cresce um sorriso no meu rosto. Cai o pijama no chão e entro no duche. A água quente refresca-me a mente. Do nada oiço a minha voz a cantarolar In Exile dos Thrice.
Corpo seco e de volta ao quarto com a toalha enrolada à volta da cintura olho para a roupa estendida em cima da cama. Digo para mim que está na hora de vestir o uniforme. Visto a roupa interior seguido de um par de calças de ganga pretas. Paro-me por segundos ainda a segurar a t-shirt vermelha enquanto pela minha cabeça passam todas as variáveis possíveis para decidir se terei calor ao combinar a t-shirt com uma camisa. Chego a acordo comigo próprio que não será um peso significativo caso tenha que despi-la. O toque final vem com o calçar dos meus companheiros de longa data. Estes velhos Chuck Taylor All Star pretos e brancos contariam, se capazes, mais histórias do que a minha memória alguma vez conseguirá armazenar.
Olho para o pulso e confirmo que ainda tenho tempo para tapar o buraco que se faz ouvir no meu estômago. Ao abrir a porta do frigorífico este parece vazio mas depressa revela que o seu interior contém exactamente o essencial. Retiro um pacote de leite que, ainda com a frescura do frigorífico, uso para afogar os cereais Crunch que tinha despejado numa tigela. Perco a conta às vezes que levo a colher à boca até apenas restar o leite na tigela. Esvazio o seu conteúdo achocolatado e olho novamente para o relógio. Está na hora.
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